Dia Internacional da Mulher: Michelle Ferri, de policial excluída à presidente do FAMCAP

Publicado em: 8 de Março de 2018

No Dia Internacional da Mulher, a entrevistada é Michelle Ferri, que sempre será lembrada como a Sargento Michelle. Ela tem 38 anos de idade e é de uma família de militares, aliás, o militarismo é a sua paixão. Uma mulher forte, Michelle foi Policial Militar por 13 anos, mas ainda vai às lágrimas quando lembra dos tempos de farda. Divorciada, tem um casal de filhos que a inspiram. A vida da Sargento Michelle mudou após a exclusão, mas ela não perdeu o hábito de acordar bem cedo, às 05h30. Ela ajuda os pais no comércio da família, em Vila Velha, onde coloca em ordem toda a parte burocrática do estabelecimento. Em dias alternados, sai do comércio familiar e vai cuidar de uma sobrinha para que os pais da menina possam trabalhar. Uma rotina agitada onde encontra tempo de ajudar os companheiros de farda através do FAMCAP. Apesar do corre-corre dos afazeres diários, ela recebe uma visita frequente que faz lágrimas escorrerem pela sua face: a saudade da farda, de ir às ruas, de combater o crime. 

 ACSPMBMES: 8 de março marca a luta das mulheres pela garantia de direitos. Na sua opinião, o que realmente tem mudado na sociedade capixaba para que a mulher deixe de ser vista apenas como mera propriedade masculina ou reprodutora?

Michelle Ferri: A mulher hoje se impõe mais, não aceita certos tipos de comportamentos e situações e também há leis que protegem a mulher. Apesar das leis, o fundamental é a mulher se impor. Eu acho que a gente vem se impondo mais, estamos conquistando mais. Muitas profissões que eram consideradas como profissões de homens, as mulheres têm adentrado esse campo. As mulheres têm conquistado respeito e, com isso, os direitos são conquistados também.

Você ingressou na PMES com 25 anos e permaneceu na corporação por 13 anos. Como avalia a sua carreira?

Caramba! Eu fazia aquilo que amava fazer, então, enquanto eu estive na polícia eu posso dizer que a minha carreira foi uma carreira de sucesso. Quando se faz aquilo que ama você não trabalha, diz um dito popular. É até difícil falar nisso agora (a voz de Michelle embarga e ela segura o choro), porque era o que eu sempre quis fazer. No começo teve um pouco de preconceito quando a minha turma chegou que eram cem mulheres de 250 policiais, então era uma turma de muita mulher e quando a gente chegou o pessoal olhava pra gente com desconfiança porque na polícia não tinha muita mulher e a gente chegou para ocupar todas as áreas. Eu e mais algumas fomos direto para patrulhar morro, então o pessoal olhava pra gente desconfiados, se perguntavam: -‘Será que elas vão conseguir?’. Teve um dia que a gente foi subir um morro e eu peguei uma escopeta calibre 12 e fui e depois um sargento veio falar comigo que achou que eu não iria conseguir porque a todo momento ele pedia para segurar o armamento para mim. Com o tempo conquistamos respeito de todos com o nosso profissionalismo.

Como você recebeu a decisão da exclusão?

Eu recebi com muita tristeza, não estava preparada psicologicamente para isso, para deixar de fazer aquilo que eu mais amava na vida. Eu fui injustiçada, os processos não foram feitos com lisura. Eu achei que não merecia isso pelo serviço que já prestei, pelo amor que eu tinha pela minha farda…. Eu não esperava isso.

Qual é o seu maior desafio hoje?

Sustentar os meus filhos e a minha casa e ainda cuidar daqueles que precisam de mim. Aqueles militares que estão passando por momentos difíceis, aqueles que têm passado por problemas de saúde e psicológicos. Eu tenho me dedicado a eles também, então isso é um desafio muito grande de cuidar da minha família e cuidar de meus amigos que estão doentes (neste momento Michelle não consegue falar mais e chora. Depois de um tempo ela segue a entrevista com a voz embargada). Isso para mim tem sido o maior desafio porque às vezes a gente se sente impotente por mais que a gente queira ajudar, às vezes a gente não tem como. Eu tenho me dedicado a isso mesmo, tenho corrido atrás, tenho ligado, tenho visto quem está precisando de alguma coisa, quem tem demonstrado estar mais triste e precisando de ajuda psicológica. Eu tenho me colocado à disposição de todos e isto tem sido meu desafio.

 Você tem alguém que te inspira?

Seria até injusto eu falar de uma pessoa apenas. Meu pai me inspira muito, principalmente quando eu era criança porque ele era militar. Meu irmão é militar da minha turma, meus primos são militares, meus tios são militares e todos eles me inspiram. Quem me inspirou a ser Policial Militar foi meu pai porque eu sempre via ele fardado e era meu sonho ser igual a ele. Depois da exclusão, hoje quem me inspira a ter forças para continuar é a minha mãe, minha filha, meu filho, meu pai… Minha família. Minha mãe sempre me dá força dizendo que vai dar certo. Ela me motiva a seguir, a continuar. Minha filha também fala muito comigo para eu ficar tranquila porque vai dar tudo certo.

O que significa para você ser de militar excluída à presidente do Fundo de Amparo aos Militares Capixabas (FAMCAP)?

Para mim significa muito. Foi uma felicidade muito grande apesar dos desafios. Isso também demonstra que a gente não pode se abater porque hoje a gente está excluído, amanhã a gente é presidente de um fundo importantíssimo para auxílio dos colegas e, no futuro, se Deus quiser, volto para a polícia. A vida é um ciclo. Hoje você está por baixo, mas amanhã está por cima. Então isso me motiva a cada vez mais lutar e cada vez mais me manter firme no meu propósito de estar ajudando a quem realmente precisa. Esse fundo foi um passo importantíssimo, principalmente para mim que fui excluída. Mostra que sempre haverá alguém ali (FAMCAP) para dar apoio a gente.

Você acredita em um futuro melhor para os militares capixabas?

Claro que eu acredito num futuro melhor para os militares! Se eu não acreditasse eu já tinha abandonado tudo. Acredito fielmente que um futuro melhor está por vir. Tenho certeza porque eu creio em Deus e Ele não vai abandonar a gente. Eu acredito sim num futuro muito melhor em todos os aspectos. Por tudo que a gente passou, a gente merece ter um futuro melhor.

Você tem conselhos específicos para as mulheres que pensam em ingressar na PMES?

Nunca desistam dos seus sonhos! Se for o que elas realmente querem é entrar na polícia não desistam porque vale muito à pena! A recompensa de você fazer o que gosta, fazer o que você ama não tem preço por mais que você passe por coisas ou situações desagradáveis, vale a pena. Então o conselho é: não desistam nunca, mesmo que alguém fale alguma coisa, que alguém te coloque para baixo, mesmo que você não passe na primeira prova ou não passe no teste físico, não desistam. Lutem pelo que vocês realmente querem. É isso.

Feliz Dia Internacional da Mulher

A Associação de Cabos e Soldados parabeniza a Sargento Michelle Ferri e a todas as mulheres, militares e civis pelo seu dia. Ser mulher é ter os sentidos à flor da pele. É fazer nascer a esperança em qualquer palavra, em cada gesto. Até nos mais difíceis. Ser mulher é ter do mundo a dádiva da vida. É encantar qualquer chão. É ser amor! É ser chama! É ser fogo!

Ser mulher é fazer feliz. É gritar com a boca fechada, como quem ama sem vaidade. Ser mulher é carregar todas as dores do passado. Sem custo. É encontrar no orgulho a razão da harmonia. Ser mulher é vontade, é paz e é futuro. Ser mulher é ser maior. Feliz Dia Internacional da Mulher para todas vocês!

Reportagem: Mary Dias (assessoriadeimprensa@acspmbmes.com.br)